Não se brinca com facas

[continuação]:

Talvez a luz do amanhecer me restitua, azulada, a frescura, ou um banho, um banho em mim vale várias horas de sono, mas não, não tomes banho, deixa-te ficar assim, o resultado de todas as secreções e repelências, assim ao natural como estás, quero-te sem banho, estou sentado e sujo ainda, a esta hora, então não se toma banho nesta casa, mas se estou só, resta-me a casa, a meticulosidade no lavar como obrigação inútil e que diferença faz, a gordura na cabeça gera calvície precoce, agonia-me o cheiro a corpos usados como em cinzeiros beatas amassadas, amachucadas, sobre si dobradas em posição fetal, o provocante de uns lábios, restos de batôn a tua boca, mas ninguém fuma nesta casa porque eu não fumo, dói a presença do meu corpo
Talvez se voltasse a deitar-me o mundo me fosse restituído, dormir a vida passada, dormi-la, porque nunca vens comigo para a cama, dormi-la esgotando-a até à inexistência, não vou porque não quero lembrar-te, dói-me agora tudo, progressivamente chega o amanhecer e esta faca, sai daí que não se brinca com facas, a mão aberta, as veias azuis, cuidado ao brincar uma pessoa ainda se aleija, não se mata um feto sem a agonia de ter morto, ouve-me: não se fazem corpos em vão e só se mata verdadeiramente o que está completamente vivo, o que fizeste de ti que nem o corpo te sobejou aqui
De onde estou sentado vê-se a rua. É a borda da minha cama, a minha cadeira, o palco do meu mundo, a jangada, quando éramos novos descíamos o rio do irresponsável presente, sem pressa de futuro
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Mas a porta está entreaberta, sinto-a, a brisa cortante nas costas, há uma qualquer janela que ficou por fechar, há sempre janelas por fechar, mas nesta casa por mais janelas que se fechem há o pó da rua e o barulho da rua e a própria rua, uma janela aberta e temos a rua inteira dentro de casa e com ela toda a realidade do que existe, mas como é que não vos incomoda, a mãe está a enlouquecer de tanta realidade, a mãe tem tanto passado em cima que lhe pesa a realidade, corcovada, e o que é que custava ter mais cuidado, mas agora não, estou sentado e depois esta dor e a mão tacteando as vértebras, passeavas-te outrora por mim, as veias azuis abertas em leque, um delta irregular, tem melhor veia na mão do que no braço, mas vamos tentar apanhá-la no braço, é esquiva, aperte a mão, a sua claro, sorriu para que sentisse o olhe-me e veja como sou fácil e eu deixo-me tentar, relaxe-se que não dói, mas sinto frio, havia na janela do laboratório uma dedada na janela imaculada, gosto de ver a agulha a entrar, não pelos vistos não lhe faz impressão o sangue, há pessoas que desmaiam só de ver, sangue, tanto sangue, viscoso, sugado pelo embolo, gulosamente, uma sensação doce tão fácil e o braço amarrado com uma luva de borracha, a porta está entreaberta e eu escancarado de perversidade, sentem-se passinhos miúdos gabinete dois a senhora que trouxe o netinho para o espera aí não demora nada não esqueceu de trazer o chichi pois não e vem em jejum, e eu no está quase foi naquele dia que soube, senhora enfermeira aquela minha mão, o meu braço e o corpo todo e a janela, logo a totalidade de mim incluindo o futuro, talvez por ser tão fácil, quantos amanhãs haverá em cada noite, não se matam corpos em vão
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Esta noite sonhei com a infinitude do céu e a proximidade das estrelas e nós nessa extraordinária excepção cósmica
Uma inesperada praia vazia, povoada de fantasmas banhistas, filas de cadeiras estiradas, alinhadas num braço-dado equívoco e provocante, sob chapéus-de-sol, gomos em pano que se espreguiçam à noite, asas abertas qual gaivotas, o mundo em silêncio solene, encabulado além da duna, dando, expectante, a oportunidade ao amor, a incerteza do saber amar
Esgotados de histórias, éramos naquele flagrante o nascer de um instantâneo em que se resumem todas as histórias possíveis, incluindo as inconfessáveis histórias, o riso e o choro e uma brisa marítima acariciando o mar, ondulando-o como se uma mão lhe torneasse as formas
Sonhei, e tantas vezes te sonhara incorpórea e eu sonâmbulo no próprio sonho e o universo a ter marcado encontro agora, convocando a sorte e o destino e o acaso e todos os milagres que nenhuma física estuda e alguma química consegue saber que existe, sem os entender, como as formigas sabem, tácteis e inteligentes na arte de adivinhar
Sonhei-te, não eras tu mas a expansão máxima de ti, potenciada como se tivesses transbordado num êxtase implodindo para além da própria pele e uma aura te cercasse e esse magnífica luminosidade irradiante fosses ainda tu e tu ainda em cada estrela e aquela ali é a da manhã e em cada murmúrio, José não está ninguém, tu no regresso dos murmúrios, descalços e tu na lembrança e tu enfim já ausente nesta noite já sonhada e porque o foi
Que esta noite a via láctea inundou de vida a praia do nosso atrevimento, há histórias Mãe que não se contam
E agora na memória desta janela um automóvel rumo ao infinito horizonte da noite e na cabine do solitário condutor o som macio do ronronar de um abraçado sentir e um arfar marítimo ondulando-o, viatura e embarcação,
Recolhem as estrelas no céu da fantasia e a realidade vai ocupando com nitidez matutina o lugar na praia real e nas cadeiras concretas e nos existentes chapéus e com ela surgem o obeso banhista e a esplêndida veraneante e a multidão de tostas humanas no assador, com muitos cremes para churrascarem melhor e ó há batatinha frita da boa, mas agora vai-te no sonho é a hora, desculpe ter-lhe pedido tantas histórias, mas não faz mal da próxima conto só uma mas para as duas, é só combinar-se e obrigado eu apesar de estar frio, compreendo por saber o que é a incerteza de amar
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Cansado dos olhos, vejo-o, porém, como se nunca o houvesse visto, o chão onde pousa o meu pé e retiro-o, soerguendo-o um pouco, para que da madeira ressaltem as nervuras e as manchas e o pigmento e a textura das tábuas alongadas no seu modo de se estirarem adormecidas por toda a casa, forrando-lhe, silenciosas, o chão
Está tudo ali, no modo horizontal de as ter serrado, o cerne, o alburno, a casca e o lenho, domingueiramente envernizado, não te lembras mas ao domingo o teu irmão punha sapatos de verniz, o que em vida foi uma árvore por onde circulou água e seiva e todos os nutrientes que a alimentaram e deram a alimento a tanta vida, pássaros, térmitas, predadores de resinas voláteis e bagas comestíveis, mendigos famintos, ontem, pai, vi um esquilo
Sigo agora, minucioso, o desenho dos nós e tantos são, compra-se do bom e depois é isto, cada nó um ramo que ali esteve e o homem decepou, árvore amputada de seus braços, corpo desmembrado pelo machado, pelo arrancar indiferente, desventrando-a, pelo serrilhar raivoso, moendo-lhe a carne e esfacelando-lhe os ossos, mas agora só manchas, já tinha notado esta pequena mancha aqui, mas não nunca tinha reparado, mas agora levantei o pé, talvez por estar sentado, por estar cansado e dormi tanta vez aqui estas tábuas e suas manchas como companhia, mas José, tu nunca reparas em nada
Pesam-me os olhos e a projecção ortogonal perfeita e lisa e sem um espinho ou uma lasca sequer do que em tempo foi um corpo de árvore e, como todos os corpos de pessoas e de bichos, imperfeitos e rugosos e descarnados, iludida agora pela mumificação, árvore minha, frondosa, tu lembras-te das odoríferas faias sob cuja sombra tantas horas se nos consumiram, magnólias únicas do que nos perfumou a infância e a inocência cheiravas bem e quantas vezes adormeci assim, mas agora que o dia clareou
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Hoje é feriado, a cidade resguarda-se no interior das suas casas e os subúrbios não vomitam pessoas sobre a cidade, apenas os turistas irrompem radiantes à descoberta, alguns enganados na direcção, rumando ao desinteressante com o mapa na mão e nele o local do interesse, ali duas japonesas, debicando do ar o esgar tímido de um sorriso sem rir
Sigo com elas no aconchego do encantamento, macia a sua pele alva onde não se fixa sequer um reflexo de sol, a doçura dos olhos de passarinhos, o passinho miúdo, saltitantes como eternas crianças ligeiramente rapariguinhas
Não sei se há um mundo possível onde eu pudesse estar, uma esteira onde, sentado, os pés soerguidos e os joelhos na boca, ansiasse o consolo de um afago, um hálito a chá provindo da intimidade das suas bocas, a ausência de excesso e o amor pela singularidade, mas hoje é feriado e elas procuram o museu que está fechado e voltarão daqui a pouco conformadas com o facto, sem um toque de desolação a desfear-lhes o semblante, esvoaçando por esta rua, rentes ao muro, a sombra meiga como companhia. Vejo-as, vejo-as desaparecerem na esquina do ângulo da minha janela, e algo em mim vai com elas, silencioso, adolescente, numa cidade sem subúrbios, fazendo dos seus corações o interior e a minha casa, a eterna janela de onde visse, enfim definitivamente, o tempo sem História, nem futuro, comigo reconciliado e por elas ansioso de viver