Espaço de Memória [continuação]

[continuação]

«Ao longo de todos estes anos, e vinte anos é uma vida, fui comprando livros, ouvindo testemunhos, reunindo documentos. Viajei. Fui e tenho sido o mecenas desta minha devoção.
Gastei muito do tempo que me restava para viver, a vivê-lo assim.
Um dia acordou-se-me um problema de existência: que sucederá a tudo isto quando eu me for?
Sabem todos os frequentadores de alfarrabistas e adelos de livralhada quanto dói ver bibliotecas, que são actos de amor tê-las reunido, dispersas pela indiferença dos herdeiros, vendidas a esmo, quantas vezes a peso, dispersas entre os predadores das primeiras edições, os que reduzem o livro à carneira ornamental da lombada, e regateados pela anónima multidão dos que se alimentam do livro manuseado como agora se chama, num assomo de «chic» terminológico, à «segunda mão» livresca, que ainda assim é a forma de os menos abonados conseguem ir lendo.

Eis porque surge este Espaço de Memória. Ele é um dos primeiros actos de despojamento do que reuni na vida, restituindo, organizado, o que encontrei disperso.
Todo o acervo documental que agora existe, e que irá doravante ser aumentado, ficará aqui, nesta cidade de Faro, para que possa surgir vida deste papel ressequido, para que o testemunho possa ser transmitido, qual estafeta na maratona, aos que se seguirem.
Não é uma dádiva, é o pagamento de uma dívida a todos os que permitiram perpetuar-se o fio contínuo da lembrança.
Não quero que o acto de citar nomes possa parecer uma forma de engrandecimento da minha pessoa. Fico-me, por isso, pelos menos conhecidos, ao sabor do acaso.
Lembro-me do Emílio Sousa, radicado em Inglaterra, que aos noventa anos já só lia com o auxílio de uma lente, mas me enviava, carinhosamente, recortes do Daily Telegraph e que através de mim soube, quem era afinal a sua amiga Rita Winsor, a agente da contra-espionagem britânica que serviu em Portugal nos anos quarenta e que com ele conviveu, sem que ele lhe conhecesse aquela faceta oculta da sua identidade, anos a fio, vizinhos, imagine-se, em Vila Real de Santo António.
Lembro-me do Rogério Menezes, que a leucemia matou, a meio de uma biografia sua que consegui publicar, a ceder-me em Castelo Branco a sua memória, confiando-me as suas angústias, a sua perplexidade, condenado que foi, à pena de morte, com pouco mais do que vinte anos, sob a acusação, em Londres, de espionagem a favor do Eixo. Graças a ele escrevi O Homem das Cartas de Londres.
Lembro-me do Desmond Bristow, que visitei na sua casa na montanha em Periana, Málaga, onde me confiou, com bonomia e humor sardónico, quanto vira e vivera, ao passar por Lisboa, nos anos quarenta, ao serviço do MI6, onde esteve com Klopp Ustinov, o pai de Peter, o actor que todos reconhecem.
Lembro-me da Lucy Coate a deixar-me tirar, num supermercado local do País de Gales, fotocópias das cartas que, já na agonia dos últimos tempos, Nathalie Sergueiew, a agente dupla sobre quem escrevi um livro, enviara a sua mãe, para o íntimo lugar de Wraxall, perto de Bristol, para onde voei por três vezes para lhe seguir os passos.
Lembro-me do Charles de Salis, que me recebeu na sua residência, no Sul de Inglaterra, e com quem revi o pouco que então sabia sobre o «desk» ibérico na Secção V, e sobre o papel que nele desempenharam Graham Greene, esse notável escritor, e «Kim» Philby, que mais tarde procuraria refúgio na URSS, onde escreveu um livro em que Portugal aparece referido repetidas vezes.
Lembro tantos, os que ainda hoje me oferecem pequenas preciosidades, gratuitamente, sabendo-me com isso feliz ao estar contente: aqui um livro, ali uma revista antiga, além uma informação.
Em nome desses para quem a História não é uma avença paga para a reescreverem, branqueando-a, um tema obrigatório para acesso curricular, mas uma forma de estar com o tempo que foi, para ganhar a medida de todas as coisas, a do tempo que é.
A todos esses anónimos obrigado.

Tenho três filhos. Que eles me perdoem por subtrair-lhes, legando à comunidade, esta universalidade de valores, que é parte da pequena valia com que espero ter contribuído ao passar por aqui. Sei que me compreendem e que estão comigo neste gesto de ir vivendo a subtrair-me quando tanta gente vive a adicionar-se.
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Este espaço de memória é o fecho lógico de um trajecto que começou pela escrita.
Uns anos depois de ter dado à estampa a minha primeira obra, tentei a aventura de ser editor dos meus próprios livros, para que pudesse encontrar esse alguém que desse a este esforço de investigação a resposta pronta e interessada que o meu empenhamento reclamava.
Nasceu assim «O Mundo em Gavetas», um projecto que desde logo ambicionou editar outros autores, abranger outros temas e que espera fazê-lo, assim o tempo nos permita organizarmo-nos. Só que o nosso modo de organizar é criar mais um andar em cima de um outro que ainda está em obras, como se o céu fosse o limite e as forças infinitas.
Devo à Liliana o inestimável contributo que permitiu criá-la, a esse pequena editora, trabalhando afincadamente para que ela exista, fazendo comigo todo o trabalho do mais nobre ao mais braçal, sacrificando o tempo, mobilizando ambos o esforço, o capital, a raiva de querer conseguir. Arriscámos tudo nesse projecto, vivemos maus momentos para que a obra fosse possível.
Apresentamos aqui o nosso terceiro livro, porque se comemora o centenário do nascimento do escritor Ian Fleming. Conto com o traço do Abel Agostinho, um artista que sabe mostrar o que teria dificuldade em saber dizer. Para ele, o meu obrigado também.
Outros livros se seguirão.
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Local de cultura, o Espaço de Memória, quer ser uma oportunidade de convívio cultural.
A mediocridade sente-se quando as pessoas falam de pessoas em vez de coisas, a grandeza pressente-se quando as pessoas falam enfim de ideias.
À vossa volta, uma livraria, um centro de exposições, uma oportunidade à fraternidade intelectual.
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Resta-me falar do livro que aqui vos apresento.
Vou ser breve.
Enfrentei, em primeiro lugar, ao escrevê-lo, o incómodo de tratar de uma personalidade que acabou por sofrer uma degradação de imagem, através do modo como a literatura é levada aos olhos dos que não sabem ler, pelo mau cinema. Ian Lancaster Fleming não é um escritor com a qualidade de um Graham Greene ou de um Malcolm Muggeridge, ou de um Somerseth Maugham, para falar nos mais antigos, ou de um «John Le Carré», só para falar naqueles que também trabalharam nos serviços secretos e se dedicaram à literatura. Mas a sua obra ficcional tem valias que a popularização hollywoodesca de 007 desconsiderou.
Sofri, depois, ao entrar na dimensão humana da sua pessoa, um processo de assimilação que torna os biógrafos auto-biógrafos, pelo que em muitos momentos tive que esconder-me por detrás de metáforas para ocultar o que seriam evidentes analogias.
Hesito, enfim, obra terminada, sobre se os que me lerem conseguirão vencer o preconceito que criou contra si a saga do agentes «com ordem para matar».
Espero que gostem desta escrita.
Agradeço aos que estão connosco, aos que nos enviaram uma palavra de ânimo, aos que nos visitarem.
A 11 de Agosto de 1964, ao findar da manhã, o coração não aguentou mais o processo de auto-destruição a que Ian Lancaster Fleming, tal como a serpente que devora a própria cauda, consumindo-se no acto de viver e de si próprio se alimentando, se tinha sujeitado, morrendo na ânsia de tanto viver.Só se vive duas vezes, escreveu, invocando um poeta japonês. Longa vida, pois para esta que aqui se inaugura».